Quando a Natureza Chama
- Claudia Gomes
- há 1 dia
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Nem sempre soube que meu lugar era na natureza. Ou talvez soubesse, mas não tinha percebido. O sonho estava adormecido, silencioso, como uma semente à espera da estação certa para germinar.
Foi preciso me perder no caos para entender o que realmente buscava.
São Paulo me engoliu por quase doze anos. A cidade pulsava, viva, intensa. E eu me deixei levar por essa correnteza de concreto e pressa. Foi uma experiência rica, aprendi muito, cresci imensamente, mas ao mesmo tempo, algo dentro de mim se ressecava. O tempo não pertencia a mim, mas ao ritmo ensandecido da cidade. O ar, sempre carregado, pesava no peito. A vida era uma corrida constante, e, sem perceber, eu também corria, sem saber exatamente para onde.
Foi ali que meu sonho começou. Ainda de forma tímida, ainda sem forma definida. Eu sabia que queria mais verde, mais espaço, mais ar para respirar. Mas naquela época, o chamado ainda era um sussurro, um desejo vago de não estar tão distante da terra.
Então veio Sorocaba. Um respiro. Quinze anos no interior, cercada por um ritmo mais tranquilo, por árvores que começavam a preencher minha paisagem cotidiana. Foi um tempo de transição, um meio do caminho entre a cidade grande e o que minha alma realmente ansiava.
Mas algo ainda faltava.
Foi então que a vida me levou para Lima, no Peru. E lá eu vivi uma das experiências mais incríveis da minha história. Lima era intensa, diferente de tudo que eu conhecia, e ao mesmo tempo me oferecia a possibilidade de algo que se tornou indispensável: as montanhas.
Se a cidade grande me adoeceu, as montanhas me curaram.
Sempre que podia, escapava para elas. Fugir era uma palavra forte, mas era exatamente isso que acontecia. Sempre que havia uma brecha, lá estava eu, nas alturas estonteantes do Peru, onde o tempo parecia desacelerar e o silêncio da terra abraçava o corpo como um bálsamo. Era ali que eu realmente respirava.
E foi nesse tempo, nesse intervalo entre duas realidades tão opostas, que compreendi que a natureza não era apenas um desejo. Era um chamado.
Não era apenas o sonho de um lugar mais bonito, de uma vida mais tranquila. Era uma necessidade visceral. Meu corpo sabia, minha alma sabia. Cada vez que pisava na terra fria das montanhas, cada vez que sentia o cheiro úmido da vegetação após a chuva, cada vez que olhava o céu aberto sem os limites dos prédios, algo em mim dizia: é aqui que você pertence.
Então veio a pandemia.
A reclusão, o silêncio das cidades, a pausa inesperada. E junto com isso, a certeza. Se a vida fosse caridosa comigo, eu jamais voltaria para a cidade grande.
Quando voltamos ao Brasil, eu e meu companheiro sabíamos exatamente o que queríamos. Não era mais um desejo indefinido, não era mais um sonho que poderia esperar. Era uma decisão.
Compraríamos uma chácara. Um sítio. Um pedaço de terra onde pudéssemos fincar raízes de verdade.
Porque algumas almas não foram feitas para viver cercadas de concreto. Algumas almas pertencem ao vento, ao verde, ao chão vivo sob os pés.
E a minha, eu sabia, era uma delas.
Depois de anos mergulhada no ritmo acelerado das cidades, cercada pelo concreto e pelo barulho incessante, reencontrar a terra foi um retorno não apenas a um espaço físico, mas a um estado de ser.
Enfim, fui viver no campo!
Aqui, onde os ciclos das estações ditam o tempo e os pássaros anunciam a manhã antes do despertador, compreendi que o ser humano não pode viver dissociado da natureza sem adoecer.
A ciência já confirmou o que o corpo sempre soube. Edward O. Wilson, biólogo e criador da teoria da biofilia, afirmou que os seres humanos possuem uma ligação inata com a natureza, uma necessidade biológica de estar em contato com o mundo natural. Sem isso, algo em nós se desorganiza. Rachel Carson, escritora e ecologista, nos lembrou que “aqueles que contemplam a beleza da terra encontram reservas de força que durarão enquanto a vida durar.”
No Japão, essa conexão tornou-se prática terapêutica. O Shinrin-Yoku, ou banho de floresta, nasceu da compreensão de que simplesmente estar em meio às árvores pode reduzir o estresse, fortalecer o sistema imunológico e restaurar o equilíbrio emocional. Estudos mostram que caminhar entre as árvores reduz os níveis de cortisol e melhora a qualidade do sono. É como se a floresta nos lembrasse, sem palavras, daquilo que realmente importa.
E eu mesma vivi essa verdade na pele.

Ao tocar a terra com as próprias mãos, ao plantar o alimento que me nutre, ao ver a terra seca recuperar sua força com o tempo e o cuidado, compreendi que regenerar a natureza é também regenerar a mim mesma. No jardim, na horta, na observação atenta do tempo das coisas, reaprendi a esperar. Entendi que nem tudo acontece no meu tempo, mas no tempo da vida.
A cidade havia me ensinado a correr. A natureza me ensinou a esperar e confiar.
Aqui, dormir cedo e acordar com os pássaros não é uma escolha intelectual, mas um chamado do corpo que responde ao ritmo do sol. O tempo desacelerado me devolveu prazeres simples e essenciais: tomar sol, pisar na grama úmida, sentir o perfume das flores ao entardecer. Comer uma fruta direto do pé, com seu sabor intenso e verdadeiro. Cochilar sob a sombra de uma árvore e perceber que esse descanso é um direito da vida, não um luxo.
E principalmente, lembrar que sou parte da natureza.
Não acima dela, não distante dela, não como observadora, mas como uma extensão de tudo o que cresce e pulsa ao meu redor. Como disse Henry David Thoreau, “a natureza não é um lugar para visitar, ela é o nosso lar.”
A natureza é uma mãe. E como toda mãe, ensina com firmeza quando é preciso, mas ama incondicionalmente, nutrindo nossos corpos, restaurando nossas forças.
Foi aqui, cercada de árvores e pássaros, de cheiros silvestres e sons naturais, de chuva, vento, céu estrelado, luas estonteantes, saguis, tucanos e beija-flores, que renasci para a arte.
A natureza me devolveu a mim mesma.
E quando me entreguei a esse chamado, foi como se ela sussurrasse: bem-vinda de volta.
A cidade havia me endurecido, me colocado dentro de prazos, metas e demandas que não respeitavam o ritmo da alma. Por anos, meu lado criativo permaneceu soterrado sob o peso da rotina, do barulho constante, da desconexão com a vida natural. Mas a terra, paciente e sábia, esperou. E quando voltei para ela, a artista em mim também despertou.
A natureza tem essa qualidade inegável: ela cura, ela ensina, e ela inspira. Desde que o mundo é mundo, os artistas buscam na natureza um refúgio para criar. Quando um escritor precisa encontrar suas palavras, ele caminha em meio às árvores. Quando um pintor busca inspiração, ele observa o jogo de luz nas folhas, os reflexos nos lagos, as cores do pôr do sol. Quando um músico quer compor, ele escuta o som da chuva, do vento, dos rios.

Muitos artistas entenderam que a criação não nasce do ruído e da pressa, mas do espaço silencioso e fértil que a natureza oferece. Thoreau escreveu Walden enquanto vivia na floresta, cercado apenas pelo lago e pelo som dos pássaros. Virginia Woolf fazia longas caminhadas pelo campo antes de escrever. Monet criou um universo inteiro dentro do seu jardim, e Van Gogh encontrava suas cores mais vivas nos campos de trigo e nas noites estreladas. Beethoven passeava pelas montanhas e ouvia o vento antes de compor suas sinfonias.
A arte não nasce no caos. Ela precisa de ar, de espaço, de contemplação.
Foi isso que descobri quando, finalmente, parei de correr e aprendi a escutar. O ritmo da natureza ensinou minhas mãos a desenhar novamente. A paciência do tempo me ensinou a bordar. O silêncio da terra me trouxe de volta à escrita.
Quando plantei minha primeira horta, entendi que criar uma história ou uma pintura não era tão diferente de cultivar uma semente. Tudo precisa de tempo, de nutrição, de descanso entre as fases. Quando vi uma planta crescer sob meus cuidados, compreendi que a arte também precisa ser cultivada, com paciência, com entrega, com respeito ao seu próprio ciclo.
A natureza me ensinou sobre cor, sobre textura, sobre harmonia. Ela não é só um espaço onde a arte acontece. Ela é a própria fonte da arte.
E assim, sem pressa, sem cobranças, fui voltando para mim.
Mas essa história merece um capítulo à parte.
Por agora, quero apenas compartilhar um pensamento: a natureza não é apenas remédio para o corpo e para a alma. Ela também é remédio para a arte.
Se há um chamado para criar, que seja entre árvores. Se há uma busca por inspiração, que seja ao som do vento.
Porque quando nos entregamos a essa fusão, algo dentro de nós renasce.
Por Cláudia Gomes
Amore, você foi abençoada… demais! … sem palavras !! ❤️♥️♥️ Te amo!!