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O peso do "NÃO"

Outro dia, alguém me pediu um favor. Nada extraordinário, nada impossível apenas algo que, naquele momento, eu não podia fazer. Mas, em vez de simplesmente dizer “não posso”, senti a necessidade de justificar. Meu “não” veio acompanhado de uma explicação detalhada, quase como se precisasse provar minha inocência diante de uma culpa invisível.


Fiquei pensando: por que justificamos tanto o nosso “não”?


Talvez seja medo de parecer rude. Talvez uma tentativa de suavizar a rejeição, de dizer ao outro: “Veja, eu não sou uma pessoa ruim, apenas estou impossibilitada no momento.” Mas será que essa justificativa é realmente para o outro? Ou é para nós mesmos, para aplacar o incômodo de negar algo?


Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, fala sobre a “má-fé”, esse estado em que nos escondemos atrás de justificativas para evitar encarar o peso real das nossas decisões. O “não” justificado pode ser um reflexo disso: uma forma de aliviar a responsabilidade de simplesmente dizer “não”.


Mas e se começássemos a nos libertar dessa necessidade? Um “não” dito com clareza e gentileza é suficiente. Ele não precisa de rodeios. Afinal, o “sim” raramente vem com justificativa. Ninguém diz “sim, porque tenho tempo livre agora e me sinto disposto”. O “sim” é aceito sem questionamentos. Então, por que o “não” precisa vir embrulhado em desculpas?


Aprender a dizer “não” sem culpa é um ato de autoconhecimento e respeito próprio. Afinal, como diz Brené Brown em A Coragem de Ser Imperfeito, “quem estabelece limites claros também se torna mais generoso”. Quando assumimos nossa verdade sem desculpas, também ensinamos os outros que eles têm o direito de fazer o mesmo.


Mas por que isso é tão difícil?


Talvez porque, desde cedo, aprendemos que o “não” é um bloqueio, uma recusa que pode ferir ou desagradar. A sociedade nos ensina a ser acessíveis, solícitos, sempre prontos a corresponder às expectativas. Um “sim” nos torna queridos; um “não” pode nos transformar, ainda que momentaneamente, em alguém frio ou egoísta aos olhos alheios.



Só que há uma grande ilusão nisso: o “não” não é uma negação do outro, mas uma afirmação de si mesmo.

Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, nos lembra que muitas vezes as mulheres são condicionadas a colocar as necessidades dos outros acima das próprias, a serem aceitas pelo que oferecem, não pelo que simplesmente são. Isso explica por que tantas vezes sentimos a necessidade de explicar, contextualizar, suavizar um “não”, como se nossa simples vontade não fosse razão suficiente.


Mas deveria ser.


Dizer “não” sem culpa é confiar na solidez do próprio ser. É aceitar que nem sempre estaremos disponíveis e que isso não nos torna menos empáticos, menos generosos ou menos humanos. Pelo contrário: limites bem colocados nos fazem mais inteiros, e pessoas inteiras têm mais a oferecer.

Nietzsche dizia em Além do Bem e do Mal que “tudo que é profundo ama a máscara”. Talvez nosso excesso de justificativas seja exatamente isso: uma máscara para o medo de desagradar. Mas quem disse que precisamos ser agradáveis o tempo todo?


O verdadeiro desafio não é apenas dizer “não”, mas sustentá-lo sem a âncora da explicação. Olhar alguém nos olhos e afirmar, com respeito e firmeza: “Não posso”. E deixar que isso seja o suficiente.


Talvez o silêncio depois disso pareça desconfortável no começo. Mas ele carrega algo poderoso: a liberdade de ser verdadeiro.


Porque é nesse silêncio que acontece o confronto. O outro espera a explicação que nunca vem. E nós, por um instante, sentimos o impulso de preenchê-lo, de justificar, de suavizar a borda afiada do “não”. Mas e se não o fizermos?


Se simplesmente deixarmos o “não” existir, sem adornos, sem desculpas, sem medo?


Talvez descubramos que o peso que sempre carregamos não era o de negar algo a alguém, mas o de não nos permitirmos existir com plenitude. Porque quando dizemos “não” sem justificativas, não estamos apenas recusando um pedido estamos nos escolhendo. Estamos nos afirmando como seres que têm limites, vontades e ritmos próprios.


E então algo surpreendente acontece: o mundo continua. O outro aceita, ou não, mas isso já não nos pertence. O que nos pertence é a integridade de termos sido fiéis a nós mesmos.


E essa é a verdadeira revolução: perceber que não precisamos nos dobrar, nos explicar ou nos desculpar para ocupar nosso espaço no mundo. Porque um “não” dito com verdade não é uma negativa. É uma afirmação de quem somos.




Cláudia Gomes 


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